sexta-feira, dezembro 15

AMOR bastante














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quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só intante
basta um instante
e você tem amor bastante

(Paulo Leminski)

quinta-feira, dezembro 14

Em caso de dor





















ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas, sai um milagre.

(Alice Ruiz e Itamar Assumpção)

Anarquia II


















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(...)
Gosto da voz,
do flerte,
do ato
de palavras ao ouvido
da respiração ofegante
do olhar aflito
da mão que se perde no meu vestido

(palavras de Danielle Sibonis)

É por aí
















que eu gostaria de descer a ladeira
e perder o freio devagar...

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Amor é um carpinteiro













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Que ri com ar de matreiro,
Cerrando forte e ligeiro
Na tenda do coração...
Com toda a proficiência
Põe pregos de resistência,
Ferrolhos na consciência,
Tranca as portas da razão


(
Adelaide de Castro Alves Guimarães)

quarta-feira, dezembro 13

Diante da janela, o roseiral

















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Testamento enterrado
à sombra do roseiral:


Deixo meu violão
para a balconista da padaria.
A erva benta
para a velha do sobrado.
A chaleira
que chia Villa-Lobos
para Frei Gustavo,
que costura almas
nas manhãs de quarta.
O livro de poesia
de Augusto dos Anjos,
para o cobrador do expresso 022.


Assinado:
A menina dos olhos tristes.
Chico me chamava de Carolina,
mas era só um disfarce.
Sou eu a menina
que viu o tempo passar na janela,
sem ver.

(Bárbara Lia)

Mário Quintana















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A HORTÊNCIA É UMA COUVE-FLOR PINTADA DE AZUL

Preguiça


















as portas
deveriam ser mais pesadas e maiores.

as estantes
mais largas e baixas.

as paredes
menos brancas e ásperas.

o chão
menos liso e gelado.

e eu
deveria levantar
desse sofá.


(Verônika Borsati)
Tela: Odalisque (Henri Matisse) 1923
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terça-feira, dezembro 12

VIDA





















Viver – é doce:
E sempre – doce!
Se assim não fosse,
Tudo se – ia!
Ninguém se ria!
Ninguém vivia!

(José Joaquim Campos Leão - Qorpo-Santo) Posted by Picasa

Deixa o coração













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Ter a mania de insistir em ser feliz
Se o amor é o corte e a cicatriz
Pra quê tanto medo
Se esse é o nosso jeito de culpar o desejo

(Marisa Monte/Marcelo Yuka)

segunda-feira, dezembro 11

ANARQUIA













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Não gosto do silêncio
das coisas inertes e inócuas

Gosto da voz, do flerte, do ato
de palavras ao ouvido
da respiração ofegante
do olhar aflito
da mão que se perde no meu vestido

(Danielle Sibonis - da série POEMAS NO ÔNIBUS - 13ª edição)

Ai que vontade













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... me dá
juntar-me a esta dupla lagarteando ao Sol!
Mas a vida lá fora me chama...
busilhões de coisas por fazer!

domingo, dezembro 10

Fiz um novo amigo


















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hoje, em pleno Domingo,
durante minhas caminhadas pela cidade.
Não tem cara de pidão???
Pois então: achei que tínhamos algo em comum...

sábado, dezembro 9

Cantinho Escondido


















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Dentro de cada pessoa
Tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
Um lugar pro coração pousar
Um endereço que freqüente sem morar
Ali na esquina do sonho com a razão
No centro do peito, no largo da ilusão
Coração não tem barreira, não
Desce a ladeira, perde o freio devagar
Eu quero ver cachoeira desabar
Montanha, roleta russa, felicidade
Posso me perder pela cidade
Fazer o circo pegar fogo de verdade
Mas tenho meu canto cativo pra voltar
Eu posso até mudar
Mas onde quer que eu vá
O meu cantinho há de ir
Dentro...

(Carlinhos Brown, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Cézar Mendes)

Infinito Particular













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O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

(Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown)

GRÁVIDA













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E tudo gira em torno dela grávida
Vida, grande dádiva, nenhuma dúvida
Gira em torno dela grávida
Vida, grande dádiva
Uma eterna órbita,
Em torno dela, grávida.

(Guilherme Arantes)


(para minha amiga Mirka das rosas que está gravidíssima e, segundo ela, sensível e carente !)

quinta-feira, dezembro 7

Gerânio


















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(
Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes)

Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida,
descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe,
tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto,
é infinita, sensível e linda



Brinquedo sério













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Eu só brinco
quando é muito sério
é muito sério
ser o teu brinquedo
Não tem mistério
não tem segredo
quando a gente brinca
quando a coisa é séria
quando o teu limite
é tão perfeito
quando ser brinquedo
pode ser tão sério
Pode haver um dia
em que a poesia
mude de endereço
deixe apenas tédio
mas enquanto isso
vem brincar comigo
vamos até onde
possa ser só riso
possa ir tão longe
possa ser tão lindo
pode ser brinquedo
pode ser tão sério

(Celito e Jerry Espíndola/Alice Ruiz)

terça-feira, dezembro 5

NINGUÉM me canta como você


















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ninguém me encanta
como você
nem me vê
do jeito
que só você
de que adianta
ter olhos
e não saber ver
ter voz
mas não ter o que dizer
digam o que disserem
façam o que quiserem
ninguém diz
ninguém vê
ninguém faz
como você
ninguém me canta
ninguém me encanta
como você

(Itamar Assumpção/Alice Ruiz)

Crédito da foto:
cartaz do filme O PIANO

segunda-feira, dezembro 4

ESTRADAS













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Como vou dizer
Palavras bem escritas
Páginas de livros
Recortes de revistas
Versos comoventes
Histórias repetidas
Uma vida que se revelou...?
(MILLUKUS)

Uma recorrência neste blog...













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I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I'm gonna write words, oh, so sweet
They're gonna knock me off my feet
Kisses on the bottom
I'll be glad I've got 'em
I'm gonna smile and say "I hope you're feelin' better"
And sign "with love" the way you do
I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you...

ou, uma variante, recomendável, diriam os mais prudentes...

Je voulais te punir,
ne plus jamais t' écrire;
mais telle est ma douleur
que je t´écris sur l'heure.

O Girassol

















Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel
Roda, roda, roda
Carrossel
Roda, roda, roda
Rodador
Vai rodando,
dando mel
Vai rodando,
dando flor
Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel
Roda, roda, roda
Carrossel
Gira, gira, gira
Girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol

(Vinícius de Morais/Toquinho)
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domingo, dezembro 3

Once in a while
















From bad luck I'm walking away
I'm not getting stuck
I'm not gonna stay
To good things
I'm moving ahead
I'm tired of dying
I'm living instead
Once in a while I'll wake up
Wondering why we gave up
But once in a while
Comes and it fades away
The sun's up and lighting the sky
I never could see it
It just passed me by
Good things keep moving along
I'm not looking backward
For something that's gone
I don't know what love is
I'm selfish and lazy
And when I get scared
I can act like I'm crazy
When I think of your kisses
I'm still gonna smile
I'm still gonna miss you
Once in a while I'll wake up
Wondering why we gave up
But once in a while
Comes and it fades away
Good things keep moving ahead
I'm tired of dying
I'm living instead

(Lyric from Madeleine Peyroux)

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Deixei avisado lá embaixo:





















Ela virá, minha amada...
de susto, sem avisar!
Se eu estiver lá em cima,
por favor, não me avisem,
quero surpresa, o estremecer-de-chave-girando...
Por favor, não perturbem.
Se eu não estiver dêem-lhe a chave...
O jeito dela?
Ah, é muito fácil:
a mais bonita, a mais meiga, a mais doce:
Ela!
(...)

(Soares Feitosa)
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sábado, dezembro 2

Porque hoje é sábado

















I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo
morreu na cruz para nos salvar.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


II




Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

(Vinicius de Morais - O dia da criação)

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sexta-feira, dezembro 1

A arte de ser feliz





















Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crinças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes um galo canta.
Às vezes um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

(Cecília Meireles)
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